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Anatomia

Centre Pompidou: Tripas pra Fora

Piano e Rogers colocaram estrutura, circulação, dutos e instalações do lado de fora do edifício. Não era provocação — era a única maneira de criar plantas livres de 7.500 m2 sem obstáculos. Anatomia da inversão.

Archcodex Editorial

O Centre Pompidou, inaugurado em 1977 em Paris, é o edifício mais mal-entendido da arquitetura contemporânea. É chamado de 'provocação', 'máquina urbana', 'anti-monumento'. Todas essas leituras são superficiais. O Pompidou é, antes de tudo, um problema de planta resolvido com inversão estrutural.

O problema: como criar um centro cultural multifuncional (museu, biblioteca, centro de pesquisa, espaço de performance) em que cada pavimento tenha 7.500 m2 de área livre, sem pilares internos, com flexibilidade para reconfiguração total a cada exposição?

A inversão: por que tudo está do lado de fora

A resposta de Renzo Piano e Richard Rogers foi radical: tirar do interior tudo que normalmente ocupa espaço dentro de um edifício. Estrutura? Treliças externas de aço, visíveis. Circulação vertical? Escadas rolantes em tubo transparente na fachada principal. Instalações mecânicas? Dutos de ar, água e eletricidade pintados em cores codificadas na fachada posterior (azul = ar, verde = água, amarelo = eletricidade, vermelho = circulação).

O resultado é que cada pavimento é um retângulo vazio de 170m x 44m, com pé-direito de 7m, sem nenhuma obstrução. É o oposto de qualquer museu anterior: no Louvre, a arquitetura é o protagonista e a arte se adapta. No Pompidou, a arquitetura desaparece e a arte ocupa.

O código de cores

As cores externas não são decorativas. São um sistema de informação. Piano e Rogers codificaram cada sistema predial com uma cor para que a manutenção — que em edifícios convencionais exige abrir paredes e forros — pudesse ser feita do lado de fora, visualmente. O técnico que precisa acessar o duto de ar condicionado não procura atrás de uma parede: ele vai ao tubo azul.

Esse sistema reduziu o tempo de manutenção em cerca de 40% nos primeiros anos de operação, segundo dados da administração do centro. É uma decisão de facilities management disfarçada de gesto arquitetônico — ou o contrário.

Estrutura: gerberettes e treliças

A estrutura do Pompidou merece atenção de engenheiro. As treliças principais vencem um vão de 44 metros sem apoio intermediário. São treliças Vierendeel modificadas, com altura de 2,8 metros, apoiadas em pilares de aço tubular no perímetro. Nos pontos de apoio, peças de aço fundido chamadas 'gerberettes' — projetadas por Peter Rice, da Ove Arup — distribuem a carga da treliça para os tirantes de contraventamento.

As gerberettes são obras de engenharia em si: cada uma pesa 10 toneladas, foi fundida em aciaria especializada na Alemanha e instalada com tolerância de 2 milímetros. São 28 peças únicas (esquerda e direita são simétricas). Rice as considerava as peças mais importantes do edifício — e tinha razão: sem elas, o sistema estrutural não fecha.

Colocar a estrutura do lado de fora não é exibicionismo. É a decisão lógica quando o objetivo é liberdade total do lado de dentro.

A praça: o projeto que ninguém fotografa

Metade do terreno do Pompidou é uma praça pública inclinada que funciona como extensão da rua. Piano e Rogers cederam 50% do terreno para o espaço público — uma decisão que nenhum incorporador aceitaria e que nenhum edital público exigiria. A praça é tão importante quanto o edifício: é onde a cidade encontra a cultura sem pagar ingresso, sem passar por catracas, sem pedir licença.

Cinquenta anos depois, a praça continua sendo o espaço público mais usado do 4e arrondissement. É onde artistas de rua se apresentam, onde turistas descansam, onde parisienses almoçam no sol. O edifício funciona. A praça funciona melhor.

Lição anatômica

A anatomia do Pompidou ensina uma coisa que a arquitetura contemporânea esqueceu: a posição dos sistemas prediais é uma decisão de projeto, não um problema a ser resolvido depois do partido. Quando Piano e Rogers decidiram onde ficam os dutos, estavam decidindo o que o edifício é. No Brasil, essa decisão é quase sempre delegada ao projetista de instalações, que recebe a arquitetura pronta e enfia tubos onde cabe. O Pompidou demonstra que inverter essa ordem muda tudo.